Coronavírus e liberalismo

Por Fábio Lucas

       O vírus que se propagou a partir da China e tem assustado os habitantes de todo o planeta, em especial na Europa nos Estados Unidos, deflagra uma crise no modo de vida das pessoas e na atividade econômica mundial. Mas o coronavírus que espalha a doença Covid-19, embora se abata sobre os principais agentes da globalização, não impõe necessariamente uma crise de negação dos processos que configuram a realidade global. Pelo contrário: a irrupção de uma ameaça à saúde pública de todos os países pode levar a uma nova etapa da globalização, mais cooperativa e menos isolacionista. Se, no primeiro momento, a reação dos governos nacionais é o fechamento de fronteiras e a restrição da circulação de indivíduos, com o objetivo de proteger os cidadãos, a continuidade da crise apresenta a possibilidade para a abertura ou aprofundamento dos laços de cooperação. Como defende o escritor israelense Yuval Harari, autor dos best-sellers Sapiens e 21 lições sobre o século 21, a melhor alternativa para enfrentar a pandemia é mais globalização – e não menos.

Para Yuval Harari, um plano global para lidar com o coronavírus deve incluir entre seus pontos principais:

  •  O compartilhamento de informações confiáveis, com os países que sofreram mais com a pandemia repartindo a experiência e as lições com aqueles que começam a enfrentá-la;
  • A coordenação global para produção e distribuição de equipamentos essenciais como kits para testes e máquinas respiratórias (ventiladores);
  • O envio de médicos, enfermeiros e cientistas, pelos países menos afetados, para os mais afetados, com o objetivo de auxílio imediato e a conquista de experiência pelos profissionais.
  • A criação de uma rede global de segurança econômica para os países e setores mais atingidos;
  • A formulação de um acordo global de testes em viajantes, a fim de permitir a continuidade de viagens essenciais através das fronteiras dos países.

Liberdade e responsabilidade social

A restrição de movimentação entre os países e dentro das cidades, a partir da identificação da necessidade de isolamento social para a contenção da disseminação da pandemia, tem gerado algumas precipitadas conclusões a respeito da força do Estado contra os direitos individuais. E nessa mesma linha, não se anula o conceito liberal da defesa primordial da liberdade, a partir da ocorrência da excepcionalidade que marca a ameaça do coronavírus.

A vigência da liberdade não foi suspensa nas nações democráticas. Mas o perigo que ronda a coletividade, não apenas nesse caso excepcional, mas em outros de menor impacto, faz com que os Estados utilizem as prerrogativas constitucionais de que dispõem para buscar a minimização dos danos coletivos – e individuais. Para o cidadão que pratica os preceitos liberais, usufruir da liberdade não significa abandonar a responsabilidade social. Liberdade e responsabilidade não são excludentes ou opostas, mas complementares, sem que uma se sobreponha à outra. O liberalismo defende a liberdade com responsabilidade, sempre.

Imunidade da democracia

Apesar de reclusos em suas casas de quarentena, os cidadãos das nações democráticas não pretendem abrir mão dos valores democráticos em nome da crise do coronavírus. Por maiores que sejam as incertezas trazidas pelo Covid-19, a convicção na democracia permanece. Dentro das leis constitucionais de cada país, os governos podem fazer uso da situação de emergência, em alguns casos, de calamidade pública instalada ou potencial, para tomar as medidas que deles se espera em prol do bem comum.

A imunidade da democracia é atestada no comportamento dos poderes instituídos durante a crise. Desta maneira, a aparente hipertrofia do Estado perante à gravidade da hora não deve ser confundida com o surgimento de tentações autoritárias: a força dos governantes vale-se de sua base legitimada pela representação popular, em obediência à legislação e aos valores democráticos.

A mão do mercado não contamina

Atacar o livre-mercado, pela constatação da necessidade da gestão do Estado durante a irrupção da calamidade pública, é misturar a natureza dos acontecimentos. A liberdade econômica não é um pressuposto da gestão da saúde pública – embora possa vir a ser um componente imprescindível de apoio em momentos de alta demanda. Para citar um exemplo da atual crise do coronavírus Covid-19, é com o financiamento e o auxílio de três grandes empresas – a Ambev, a Gerdau e o Hospital Albert Einstein – que a Prefeitura de São Paulo anunciou a construção de um novo hospital na cidade, em apenas 40 dias, com capacidade para 100 leitos, exclusivamente para o tratamento da pandemia.

Vale recordar ainda a iniciativa da mesma Ambev, fabricante de diversas marcas de cerveja, que divulgou a produção de 50 mil garrafas de álcool em gel para ser distribuído na rede pública de hospitais no Brasil. No Ceará, semelhante ação foi tomada pela empresa britânica Diageo, dona da cachaça Ypioca, para a rede hospitalar do estado. O grupo Boticário segue na mesma direção, com a doação de 1,7 tonelada de álcool gel para a rede pública de saúde. As lojas Renner anunciaram a destinação de R$ 4,1 milhões para a compra de suprimentos contra a doença. Os exemplos não param, enquanto a pandemia não cede.

A mão da iniciativa privada é tão importante quanto a mão do Estado, num momento de gravidade indiscutível para todos. Os limites do poder público continuam visíveis, e por isso a ajuda privada não é dispensável – pelo contrário, é bem-vinda.

Liberalismo e avanço da ciência

A pressão trazida pela pandemia do coronavírus Covid-19 realça a necessidade de um ambiente global favorável à colaboração e ao intercâmbio de informações que nutrem a evolução do conhecimento. Tal ambiente somente floresce com o desenvolvimento de práticas cultivadas pelo liberalismo e os ideais humanistas que norteiam o pensamento liberal. Os valores da liberdade, quando exercidos coletivamente, amparam os avanços e conquistas desde os primórdios da era científica.

Não é por acaso que o pai do liberalismo, o inglês John Locke, estudou medicina, ciências naturais e filosofia em Oxford, um dos mais renomados centros de produção e difusão científica no mundo. Locke foi membro da Academia Científica da Sociedade Real de Londres.

Vale recordar ainda a conexão do pensamento liberal com a defesa das bandeiras da ciência, a partir do Iluminismo francês que se propagou na Europa, espalhando depois, em escala global, a semente humanista e democrática.

Fábio Lucas, é jornalista e mestre em filosofia.