Afinal, o que está acontecendo no Afeganistão?, Por Ighor Branco

AFEGANISTÃO
O Afeganistão é um país de predominância islâmica localizado na conflituosa região do Oriente Médio. Vizinho de países com poderio nuclear como a China e o Paquistão e localizado em região montanhosa que dificulta invasão militar estrangeira, o país é relevante
tanto geograficamente, como politicamente. Apesar da bela topografia, no que tange à política, o Afeganistão é palco de conflitos étnicos
e disputas religiosas. Após a invasão soviética e a queda do presidente Najibullah em 1992, surgiu o grupo fundamentalista islâmico Talibã.

TALIBÃ
O Talibã governou o país entre 1996 e 2001. Durante o poder, o grupo impôs sua visão da Sharia, uma lei islã conservadora; com isso, desarmou a população, perseguiu infiéis, assassinou opositores e limitou a liberdade das mulheres com a proibição de estudar e andar
desacompanhada, além do uso obrigatório de burcas cobrindo todo o corpo. Por outro lado, o grupo defende que a sua atuação é de purificação social, no sentido de que a ordem no Afeganistão foi perdida e por isso o país vive uma realidade de mazelas sociais e
econômicas. No quesito prático, durante o governo, o Talibã permitiu que grupos terroristas usassem o país para planejar e executar ataques em solo estrangeiro. Um desses grupos foi a al-Qaeda de Osama bin Laden, que orquestrou diversos atentados ao redor do mundo, e sobretudo nos Estados Unidos, sendo o pior deles o ataque de 11 de Setembro.

ESTADOS UNIDOS

Após o ataque, o governo americano tornou prioridade o combate ao terrorismo e seus braços e liderou uma coalizão militar internacional que invadiu o Afeganistão e derrubou o Talibã do poder. No entanto, esse não foi o fim do grupo, que se refugiou em províncias mais afastadas e parte do Paquistão. Com a longa presença dos EUA, o grupo obteve mais tempo para se organizar e realizar pequenas ações de terror. Ademais, novos adeptos foram adquiridos, recrutando soldados majoritariamente insatisfeitos com a tutela americana, a desigualdade social e os escândalos de corrupção no governo afegão legitimado pelos EUA. Ainda em 2020, com o crescente avanço do Talibã e a pressão popular pelo encerramento das “guerras sem fim”, Donald Trump fechou um acordo com o grupo, comprometendo-se a
retirar as tropas do país em troca do fim dos ataques às posições americanas e do diálogo de paz com o governo afegão. Este, que recebeu massivo apoio financeiro e de treinamento das autoridades e do exército americano.

ACORDO E RETOMADA DO PODER PELO TALIBÃ
Agora presidente, Joe Biden cumpriu a promessa e iniciou a retirada das tropas. Com isso, o grupo rapidamente avançou sob o território do Afeganistão sem a resistência das forças armadas e do governo afegão, que teve como ponto alto a fuga do presidente Ashraf Ghani.
Com a tomada do poder pelos talibãs e da principal cidade do país, o cenário atual é de desespero e crise humanitária. Milhares de afegãos se amontoam em aeroportos buscando deixar o país, por medo das consequências do novo regime talibã. Em contrapartida, o presidente americano afirma que não é a intenção dos Estados Unidos construir uma nação no Afeganistão. Mais de 1 trilhão de dólares foi gasto para o combate e estruturação de um governo local. Assim, o foco da argumentação é de que os EUA não podem combater uma guerra que os próprios afegãos não querem travar. Como resolução, Biden reitera que o governo americano está em alerta para as ameaças do Talibã e que buscará uma atuação por meio da diplomacia e influência econômica, mas o desafio de estabelecer uma ordem benéfica a todos no Afeganistão é da própria população.

Ighor Branco, é acadêmico de Ciência Política da UFPE.