21/08/2018

DEM tenta voltar a ser um partido de grande porte


Valor Econômico (21 Agosto 2018 | 05h00)

Convenção Nacional do Democratas

Após 16 anos de ostracismo, o Democratas voltou a ganhar protagonismo e espera compor novamente o grupo dos grandes da política brasileira, nas eleições de 7 de outubro. Antigo partido dos grotões, o DEM fincou um pé no Sudeste, onde pode eleger o governador e um senador pelo Rio de Janeiro, o vice-governador de São Paulo e um senador por Minas Gerais – os Estados que concentram os três maiores colégios eleitorais do país. Definitivamente, o DEM parece ter se livrado da sentença expedida pelo ex-presidente Lula da Silva expediu a sentença, no auge de sua popularidade: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”. Não conseguiu. Mas foi por pouco.

“Pagamos um preço alto pela decisão de ser oposição ao PT, foram muitas as provações, mas fomos recompensados pelo compromisso com a coerência e os nossos princípios”, diz ACM Neto, prefeito de Salvador e atual presidente do DEM. Neto não exagera. Na eleição de 2014, o partido elegeu apenas 21 deputados e ficou com a décima bancada da Câmara, à beira do extermínio, como decretara Lula. O topo se deu em 1998, quando chegou a eleger 105 deputados federais. Eram os tempos gordos da aliança com o PSDB, partido com o qual esteve coligado em seis das oito eleições presidenciais desde a redemocratização (incluindo a eleição de 2018).

Com a janela eleitoral e o troca-troca partidário o DEM está com 41 deputados, prova da importância que adquiriu depois do impeachment, quando passou a comandar a Câmara dos Deputados com o deputado Rodrigo Maia (RJ). Nas projeções de Neto, o DEM terá entre 40 e 45 deputados na próxima legislatura. Atualmente tem a quinta maior bancada), atrás apenas de PP, PSDB, MDB e PT. E pode, portanto, repetir o feito.

Nas eleições deste ano, o DEM lançou oito candidatos aos governos estaduais – o maior número desde a disputa eleitoral de 2002, quando o partido também apresentou oito candidaturas e elegeu quatro governadores. O maior vexame se deu em 2014, quando disputou em apenas dois Estados e não elegeu sequer um governador. A situação é bem diferente em 2018. Dos oito candidatos aos governos estaduais, pelo menos quatro podem ser considerados altamente competitivos, inclusive o do Rio de Janeiro, onde o candidato é o ex-prefeito da capital Eduardo Paes.

“Eles [o Democratas] mantiveram a coerência nos anos mais magros para eles”, diz Paes, um cristão novo no partido. O ex-prefeito foi convidado a voltar para o PSDB pelo candidato tucano a presidente, Geraldo Alckmin, mas preferiu se abrigar no DEM. “O DEM do Rio tem características mais progressistas”, diz Paes, referindo-se a outro ex-prefeito da capital, o atual vereador Cesar Maia – que é candidato a senador – e a Rodrigo, filho de Cesar, presidente da Câmara dos Deputados, a quem chama de “Sr. estabilidade”.
“Desde sua fundação, o PFL/DEM nunca elegeu um governador na região Sudeste. A candidatura de Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, é uma chance real de o partido conquistar um governo na região pela primeira vez”, diz o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Murilo Medeiros, autor do estudo sobre o Democratas cujos dados são apresentados nesta reportagem.

Para Eduardo Paes, uma dupla vitória. A primeira seria abrir as portas do Triângulo das Bermudas ao DEM. A segunda – uma vitória no Rio – significaria que ele passou sem danos pelo terremoto moral que arrasou com o MDB do Rio de Janeiro, politicamente. “Sai por causa da crise muito forte no MDB do Rio”, diz. “Eu teria de dar um sinal muito forte do meu não compromisso com essas coisas”.

Além do Rio, o DEM tem candidaturas fortes aos governos de Goiás, com o senador Ronaldo Caiado. Mauro Mendes e Davi Alcolumbre lideram, respectivamente, no Mato Grosso e no Amapá. Na Bahia, de onde foi desalojado em 2006 pelo PT, o favoritismo é do governador Rui Costa, mas o jogo promete ser disputado devido, sobretudo, ao bom desempenho de ACM Neto na Prefeitura de Salvador. Para o Senado, o DEM também entra com oito candidatos, a maioria integrada por nomes competitivos como Mendonça Filho (PE), César Maia (RJ), Jayme Campos (MT), Siqueira Campos (TO) e Rodrigo Pacheco (MG).

A origem primária do DEM é a antiga Arena, partido criado junto com o MDB para contracenar a aparência de normalidade democrática numa ditadura militar. Depois passou a se chamar PFL e junto ao PMDB -sucedâneo do MDB – fez a transição da ditadura militar para o regime civil da Nova República. Qualquer que seja agora o resultado eleitoral, ACM Neto tem certeza do papel do DEM, a partir de 2019, será importante para a governabilidade. Segundo Neto, o DEM adquiriu musculatura e importância no centro político brasileiro, por onde necessariamente passará a estabilidade, seja qual for o presidente a ser eleito.