01/11/2013

Compartilhamento com quem, Dona Dilma?


 Paulo Gouvêa da Costa

 

 

No clássico da ficção política intitulado “1984” o inglês George Orwell descreve um sistema ditatorial que teria domínio absoluto sobre a mente das pessoas. O governo controlaria os atos e até os pensamentos dos cidadãos através da espionagem, olhando tudo o que cada um fazia no trabalho, na sua casa, em qualquer lugar, através de tele-telas – aparelhos de televisão que serviam a dois propósitos: para serem olhados e para espionar as pessoas, retransmitindo tudo o que faziam em todos os lugares. A pessoa tinha medo até de pensar alguma coisa contra o governo porque a expressão de seu rosto poderia revelar o crime hediondo de discordar dos poderosos.

Os ditadores de 1984 também usavam, como meio de dominar a população, o controle das informações. Para isso, criaram um idioma chamado “novilíngua” que distorcia a comunicação para criar versões diferentes dos fatos e trapacear com a verdade.

George Orwell previa tudo isso para 1984. Passaram-se mais 29 anos e, mesmo vivendo numa democracia, um certo tipo de espionagem já se incorporou às nossas vidas. “Sorria, você está sendo filmado” aparece toda hora em todo lugar. Câmeras estão por aí nas ruas, nos elevadores, nas lojas, e prestam um serviço útil: ajudam na segurança da população. E ainda tem a espionagem internacional, especialmente a americana, que talvez não afete o brasileiro comum, mas tem incomodado muita gente importante de muitos países.

O que também virou rotina no Brasil é o uso da novilíngua, a troca intencional do sentido das coisas através de um vocabulário enganoso. A palavra “privatização” por exemplo, no linguajar particular da nosso governo, virou “compartilhamento” ou “partilha”. Entregar 60% das maiores reservas do Pré-Sal para empresas estrangeiras não significa mais o que sempre significou. Não é um ato de privatização. É compartilhamento. Tenho vontade de perguntar: “compartilhamento com quem, Dona Dilma”? Em bom português, se um grande lote do Pré-Sal é “partilhado” e a maior parte dele deixa de ser propriedade brasileira, o que antes era público e nacional está sendo privatizado e também internacionalizado.

 

Não estou, porém, condenando todo o processo. Concordo que é melhor entregar um pedaço do petróleo que é nosso e ter chance de tirá-lo do fundo do mar do que deixá-lo repousando no seu berço esplêndido. Tudo bem. Mas, que então se dê ao ato o seu nome próprio. E não ficar enrolando o povo com um vocabulário digno dos ditadores da obra do escritor inglês. A propósito: para haver leilão é preciso leiloar. E isso exige mais do que um único grupo participante e mais de uma oferta, para que se possa escolher a melhor. O que aconteceu recententemente foi a entrega do Campo de Libra pelo preço mínimo ao único grupo que apareceu no dia em que o campo seria leiloado. Mas, o governo chama isso de “leilão”. É a novilíngua brasileira.  

 

Ex-Deputado Federal, Presidente DEM-SC