Habilidades do futuro na educação, Por Mendonça Filho.

    No Brasil mais de 50% das crianças concluem o terceiro ano do fundamental com alfabetização inadequada. E mais...

    No Brasil mais de 50% das crianças concluem o terceiro ano do fundamental com alfabetização inadequada. E mais grave: no Nordeste, esse índice chega a 70%. Informe recente da Unicef aponta que a nossa defasagem educacional histórica foi agravada com a pandemia e mostra que o progresso no ensino de matemática e português em certas séries regrediu em mais de uma década. Neste cenário, mais do que nunca, é importante trazer para o debate a discussão sobre as habilidades do futuro defendidas pelo educador americano Salman Khan, que nada mais são do que as tradicionais matemática, leitura e escrita.
      Ao dar relevância a habilidades tradicionais da educação, Khan reposiciona o debate, principalmente no Brasil. Lembro bem da polêmica em torno do projeto de reforma do ensino médio, apresentado pela nossa gestão no MEC em 2016, aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Temer em 2017.  Na época, o mundo “desabou”, porque a reforma do ensino médio tornava obrigatórias português, matemática e inglês para o fim do ciclo. As demais disciplinas passariam a ser escolhidas pelo aluno ou pela escola dentre cinco áreas de ênfase: Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Matemática e Formação técnica e profissional.
      A polêmica baseava-se no tese de que a obrigatoriedade de português, matemática e inglês tornariam o ensino mecânico e não desenvolveria o senso crítico. Considerado pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do mundo, em 2012, por ter “virado a educação de cabeça para baixo”, Khan defende que escrever é uma habilidade que as pessoas precisam ter não só para comunicar, mas porque é preciso ser um leitor muito mais criterioso. “Se você tiver a habilidade de pensamento crítico, um pensamento em nível algébrico, se puder escrever, vai ter uma compreensão de leitura sólida e vai estar à frente de 95% das pessoas no planeta”, afirmou Khan, numa entrevista ao Valor Econômico.
        Fundador da Khan Academy, organização sem fins lucrativos e que tem como missão “educação gratuita para qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, com alta qualidade”, Khan defende que a educação não está mais relacionada aos parâmetros de espaço e tempo. A Khan Academy oferece ensino on-line, em várias áreas do conhecimento, para mais de 102 milhões de pessoas, entre alunos e professores, em 109 países, incluindo o Brasil. Aqui, já são mais de 4 milhões atendidos e o conteúdo educacional é utilizado em escolas por 36 secretarias de educação.
       A pandemia da covid_19 deixa um rastro de prejuízo, alguns incalculáveis, para a educação. No entanto, temos que focar no que fica de aprendizado.  Segundo Khan, um dos ensinamentos da pandemia é que as pessoas devem aprender no seu próprio ritmo. Aí surge uma questão fundamental. Qual escola e modelo de educação vamos construir no pós pandemia?!
Mendonça Filho, ex-ministro da Educação e consultor da Fundação Lemann.